Quem chega ao consultório dizendo “tomo rivotril há cinco anos e não consigo mais parar” não está apenas relatando uma dependência farmacológica. Está relatando uma posição diante do próprio sofrimento. Uma posição que o medicamento ajudou a sustentar, e que precisa ser interrogada.
A ideia central da minha tese de doutorado, defendida na Universidad de Buenos Aires e publicada como livro em 2017, parte de uma constatação clínica: o uso prolongado de benzodiazepínicos não apenas não resolve a angústia — em muitos casos, a torna inacessível. E o que se torna inacessível à palavra continua atuando, sem nome, sem endereço, sem destino.
O que o ansiolítico faz (e o que não faz)
O benzodiazepínico atua sobre o sistema GABAérgico, reduz a excitabilidade neuronal, desacelera o corpo. Faz isso bem. Para crises agudas, para situações pontuais, para o curtíssimo prazo, é um recurso válido — em diálogo com o psiquiatra que o prescreveu.
O problema começa quando o ansiolítico deixa de ser um recurso e se torna uma forma de existência. Quando o paciente já não sabe distinguir entre a angústia e a ausência dela, porque há anos não experimenta uma sem a presença do calmante na corrente sanguínea.
A angústia, em psicanálise, não é um sintoma a ser eliminado. É um afeto que sinaliza alguma coisa. Freud, em 1926, dirá que a angústia é o afeto que não engana — o único que aponta diretamente para o real do desejo. Lacan, no Seminário X, sustenta que a angústia surge quando o sujeito é confrontado com o desejo do Outro, com aquilo que não cabe na palavra e ainda assim insiste.
Anestesiar a angústia sem escutá-la é silenciar a única bússola que o sofrimento oferece.
A epidemia silenciosa
O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de benzodiazepínicos. Clonazepam, alprazolam, bromazepam circulam nas prescrições com uma facilidade que assustaria qualquer clínico atento. Não estou aqui para criticar o psiquiatra — muitos deles são interlocutores valiosos do meu trabalho. Estou para nomear uma cultura: a cultura da supressão imediata do mal-estar.
Vivemos numa época em que o sofrimento é tratado como falha. Como erro de software. Como algo que precisa ser eliminado o mais rápido possível, com o menor custo subjetivo, sem que se tenha que pensar muito sobre o que dói. Nessa cultura, o ansiolítico se torna o herói químico que devolve o sujeito à pista.
Mas devolve a quem? Devolve o sujeito a si mesmo? Ou devolve uma versão anestesiada de si que pode continuar funcionando dentro da mesma lógica que produziu o sofrimento?
O que o medicamento adia
Quando alguém me procura dizendo que toma calmante há anos, faço uma pergunta simples: e o que voltava antes do remédio? Quase sempre a resposta é hesitante. Porque o que voltava — a insônia, a opressão no peito, o pensamento que não para, o aperto que aparece em situações específicas — foi sendo apagado da consciência pelo próprio uso continuado da medicação.
O ansiolítico, nessa medida, não resolve. Adia o encontro com aquilo que insiste. E aquilo que é adiado não desaparece. Acumula. Encontra outras formas de retorno: compulsões, somatizações, depressão lenta, sensação de vazio, falta crônica de desejo.
Não é incomum que pacientes em uso crônico relatem uma espécie de “achatamento” da experiência. Como se o mundo perdesse relevo. Como se nada fosse mais nem muito bom nem muito ruim. Esse achatamento tem um nome técnico — embotamento afetivo — e tem um custo subjetivo enorme: a perda da capacidade de desejar.
O que a psicanálise oferece
A psicanálise não promete tirar ninguém do remédio. Esse é um trabalho clínico que envolve psiquiatra, paciente e tempo. O que a psicanálise oferece é outro lugar para o que o medicamento silenciou: uma escuta que sustente a fala.
Quando alguém pode finalmente dizer o que sente, dizer onde dói, dizer o que se repete e o que insiste, sem que isso seja imediatamente transformado em diagnóstico ou em receita, algo começa a se mover. Não na direção de uma cura — esse vocabulário não nos pertence — mas na direção de uma compreensão do próprio funcionamento.
E quando o sujeito começa a entender o que o aflige, em algum nível, o aflitivo perde parte da sua intensidade. Não porque tenha sumido. Mas porque agora tem nome, tem história, tem uma posição na vida.
Não é fazer terapia para parar de tomar
Quero ser claro: a análise não é uma terapia para parar de tomar ansiolíticos. Quem entra em análise com essa demanda está frequentemente colocando o remédio como sintoma central, quando em geral ele é uma consequência. O sintoma costuma estar antes — no que se repete, no que se evita, no que não pôde ser dito.
A análise pode, sim, ao longo do tempo, devolver ao sujeito a capacidade de sustentar a própria angústia sem precisar suprimi-la quimicamente. Mas isso não é uma promessa nem uma garantia. É uma possibilidade que se constrói no percurso.
E esse percurso não é rápido. Não cabe em doze sessões. Não tem protocolo. Cada análise é singular, porque cada sofrimento é singular.
O que esperar de uma primeira conversa
Quem me procura sobre esse tema costuma chegar com vergonha. Vergonha de estar dependente. Vergonha de “não ter força” para parar. Vergonha de ter precisado tanto de tanto remédio por tanto tempo.
A primeira coisa que digo é que não se trata de força de vontade. Trata-se de uma posição subjetiva que precisa ser escutada. E para isso existe a entrevista preliminar — um conjunto de encontros iniciais nos quais começa a se formular a demanda e a se delinear se há condições de trabalho.
Se o que foi exposto aqui faz sentido para você, ou se há uma pergunta sua que insiste sobre seu uso de medicação, é possível solicitar uma entrevista. Sem garantias. Apenas a possibilidade de começar a olhar para isso com outros olhos.
Esse é, no fim, o ofício do psicanalista: sustentar uma escuta para que a palavra possa produzir consequências.