Antes de qualquer coisa, uma observação ética: este texto não substitui o acompanhamento de um psiquiatra. A retirada de benzodiazepínicos exige supervisão médica, redução gradual, monitoramento de sintomas de abstinência. Quem está pensando em parar de tomar precisa fazer isso com quem prescreveu, ou com outro psiquiatra de confiança.
O que vou tratar aqui é outra dimensão: a dimensão subjetiva do que é parar de tomar. Aquilo que a redução química, sozinha, não dá conta.
Por que parar é tão difícil
Quem toma ansiolítico há anos sabe: não é simplesmente “decidir parar”. O corpo se adaptou. O cérebro recalibrou. E há também uma dimensão psicológica que precede e excede a dimensão farmacológica: o medicamento se tornou um modo de habitar a própria existência.
Acordar sabendo que à noite vai poder dormir. Sair de casa sabendo que se a crise vier, há um comprimido na bolsa. Aceitar um convite social sabendo que meia dose dá conta da ansiedade antecipatória. Aos poucos, o ansiolítico deixa de ser um socorro e passa a ser a estrutura sobre a qual a vida se sustenta.
Parar de tomar, nesse contexto, não é apenas reduzir miligramas. É renunciar a uma forma de existência que já está consolidada. E renunciar a uma forma de existência exige outra coisa: precisa que algo apareça no lugar daquilo que está sendo retirado.
O que aparece quando o remédio começa a sair
A literatura clínica documenta os sintomas físicos da retirada: insônia, irritabilidade, palpitações, dores musculares, hipersensibilidade sensorial. Tudo isso é real e tem que ser conduzido tecnicamente.
Mas há também o que aparece na dimensão subjetiva. E essa parte é quase nunca falada nos consultórios.
Aparece, em primeiro lugar, a angústia que estava ali o tempo todo, anestesiada. Aparece a sensação de que o mundo “tem volume demais”. Aparece a percepção de que coisas que pareciam superadas — uma raiva antiga, uma tristeza arquivada, um medo de algo específico — estavam apenas em pausa, e voltam com a mesma intensidade com que pararam.
Aparecem também as perguntas que o medicamento adiou. Por que comecei a tomar? O que estava acontecendo na minha vida quando isso virou rotina? O que eu não queria sentir? O que eu não quis dizer?
A ética do sofrimento
Em meu livro publicado pela JVE Editores em Buenos Aires, defendo que o uso crônico de benzodiazepínicos engendra uma posição ética particular: o sujeito delega ao químico a tarefa de habitar o próprio mal-estar. Não se trata de fraqueza, nem de escolha consciente. Trata-se de uma posição que se constrói lentamente, dentro de um campo cultural que estimula a supressão imediata do desconforto.
Parar de tomar exige, então, mais do que coragem. Exige outra ética. Exige aceitar que o sofrimento, em alguma medida, é parte da existência humana. Que a angústia não é falha de funcionamento. Que o mal-estar pode ter algo a dizer.
Essa outra ética não se constrói sozinha. Construir sozinho seria heróico — e o heroísmo, na clínica, costuma ser sintoma e não solução.
O lugar da análise nesse processo
A análise não substitui o psiquiatra. A análise não retira ninguém do remédio. O que a análise faz é abrir um lugar onde o que estava sendo silenciado pelo ansiolítico pode finalmente ser dito.
Quando o sujeito começa a falar sobre o que dói — não no nível do sintoma físico, mas no nível do que insiste, do que se repete, do que faz sentido demais ou de menos — a relação com o medicamento muda.
Não porque a vontade de parar aumenta. Pelo contrário: muitas vezes a urgência de parar diminui, porque o sujeito percebe que o problema central não estava no remédio. O remédio era um sintoma de algo anterior. Quando esse algo anterior começa a ser elaborado, o medicamento pode ser reduzido sem que isso seja vivido como perda catastrófica.
Aí, sim, o desmame químico — feito com o psiquiatra — encontra solo subjetivo para acontecer.
Uma espera diferente
Algumas pessoas chegam dizendo “quero fazer análise para parar de tomar rivotril”. Costumo responder: a análise pode acompanhar esse processo, mas não vai prometer esse resultado. Se a meta da análise for parar de tomar, ela vira mais uma técnica de eficiência subjetiva. E a psicanálise não é técnica. É outro tipo de relação com a palavra.
O que posso dizer com honestidade é o seguinte: pacientes que sustentam um percurso analítico costumam, ao longo do tempo, encontrar uma relação diferente com o próprio sofrimento. Encontram um lugar para a angústia que não é mais o comprimido. Encontram modos de habitar o mal-estar que não dependem da supressão química imediata.
Isso, em si, não é a “cura”. Mas é uma transformação subjetiva que muitas vezes torna a redução do medicamento possível, em diálogo com o psiquiatra.
Para quem está pensando nisso agora
Se você toma ansiolítico há tempo demais, e isso começou a incomodar, há três passos práticos:
Primeiro, converse com seu psiquiatra. Não pare por conta própria. Não pule doses. Não troque marcas sem orientação. O desmame, quando indicado, precisa ser conduzido tecnicamente.
Segundo, considere uma análise. Não como recurso anti-medicação, mas como espaço para escutar o que o medicamento adiou. Esse espaço pode mudar lentamente sua relação com a própria angústia.
Terceiro, abandone a urgência. Quem leva anos tomando ansiolítico não vai resolver isso em semanas. O processo é demorado, exige paciência, exige que se aceite a possibilidade de não dar certo nesta tentativa. Mas a paciência aqui não é desistência — é o respeito ao tempo singular de cada subjetividade.
Se algo desse texto ressoa, é possível solicitar uma entrevista preliminar. Sem garantias. Sem promessa de resultado. Apenas a possibilidade de começar a olhar para isso por outro ângulo.