Compulsões e pânico: o que a psicanálise tem a dizer

Crises de pânico e compulsões não são falhas de autocontrole. São formas que o sintoma encontra para dizer o que ainda não pode ser dito de outro modo.

Crises de pânico e compulsões — comer, comprar, beber, jogar, se relacionar — chegam ao consultório com uma queixa parecida: “não consigo me controlar”. A pessoa percebe o impulso, sabe que não devia, tenta resistir, e mesmo assim age. Depois, a culpa é imensa. E o ciclo se repete.

A primeira coisa a se dizer é que isso não é fraqueza moral. Não é falta de força de vontade. Não é problema de caráter. É sintoma. E sintoma, na psicanálise, tem outra função além de incomodar.

O que é um sintoma

No senso comum, sintoma é o sinal de uma doença que precisa ser eliminado para que a saúde retorne. Tira-se a febre, trata-se a infecção. Tira-se a compulsão, trata-se o transtorno.

Em psicanálise, sintoma tem outra função. Sintoma é uma formação de compromisso — uma maneira que o psiquismo encontra de resolver, ainda que mal, um conflito que não pode ser resolvido de outro modo.

Quando alguém repete uma compulsão, está, ao mesmo tempo, sofrendo com ela e se beneficiando dela em algum nível inconsciente. O sintoma satisfaz, parcialmente, um desejo recalcado. E impede, parcialmente, que esse desejo apareça de modo mais direto.

Por isso, simplesmente eliminar o sintoma sem entender o que ele resolve costuma produzir deslocamento: o sintoma some num lugar e aparece em outro. Quem para de comer demais começa a beber demais. Quem para de comprar demais começa a se relacionar demais. O eixo persiste, a forma muda.

Crise de pânico: a angústia sem destino

A crise de pânico tem uma fenomenologia específica. Aparece subitamente, sem motivo aparente, com sintomas físicos intensos: taquicardia, falta de ar, tontura, sensação de morte iminente. Dura alguns minutos. Passa. Deixa rastro de medo de que volte.

Do ponto de vista psicanalítico, a crise de pânico é uma forma extrema da angústia. Quando a angústia não consegue ser ligada a nenhum objeto, quando não consegue se transformar em medo de algo nomeável, ela invade o corpo e produz a crise.

Por isso a crise costuma aparecer em momentos que parecem calmos. Não é coincidência. É lógico. Enquanto a vida está agitada, a angústia se distribui por mil objetos. Quando a vida desacelera, a angústia se concentra e estoura.

Tratar isso apenas com medicação reduz a frequência das crises, e isso é importante. Mas não toca no que produz a angústia. A angústia continua lá, contida quimicamente, aguardando o próximo descuido.

Compulsões: gozo no lugar do desejo

Compulsões — alimentares, comportamentais, químicas — têm uma estrutura comum: o sujeito é tomado por uma força que não controla, age, e depois experimenta um misto de alívio e culpa.

Lacan dirá que nas compulsões opera o que ele chama de gozo. Gozo, em Lacan, é diferente de prazer. Prazer é satisfação que se experimenta como agradável. Gozo é satisfação que se experimenta como excesso, como invasão, como algo que ultrapassa o sujeito.

Na compulsão, o sujeito goza de algo que, ao mesmo tempo, o destrói. Come até passar mal e sente alívio. Compra além da conta e sente alívio. Se relaciona destrutivamente e sente alívio. Esse alívio não é prazer. É descarga de uma tensão que o sujeito não sabe nomear.

Por trás de toda compulsão, em geral, há uma pergunta sobre o desejo que ficou sem resposta. O sujeito não sabe o que quer, e o vazio do desejo é preenchido pelo gozo da compulsão. Substitui-se o desejar pelo consumir.

Por que medicação ajuda parcialmente

Pacientes com crises de pânico costumam responder bem a antidepressivos e ansiolíticos. Pacientes com compulsões podem se beneficiar de medicação que reduza o impulso. Em ambos os casos, há ganho real.

Mas o ganho é parcial e tem custo: enquanto a medicação atua, o sintoma fica suspenso, mas a estrutura que o produz não muda. Quando a medicação é retirada, o sintoma costuma voltar. Quando a medicação é mantida indefinidamente, o sujeito convive com o sintoma controlado mas sem ter elaborado o que ele tentava dizer.

Isso não desqualifica o tratamento medicamentoso. Em muitos casos, a medicação é necessária para tornar a vida cotidiana possível, e nessas situações a recomendação é manter. Mas medicação sozinha, em geral, não responde à pergunta de fundo.

O que a análise oferece para esses casos

A análise não promete eliminar o pânico ou a compulsão rapidamente. Promete algo mais sutil: dar palavra ao que estava operando como ato.

Numa análise, quem chega com crises de pânico vai descobrindo, ao longo do tempo, que as crises tinham contexto. Que apareciam em momentos que diziam respeito a algo da vida do sujeito. Que estavam respondendo a perguntas que o sujeito não sabia que estava fazendo.

Quando essas perguntas começam a se articular em palavras, a crise tende a perder força. Não porque a angústia desapareça — ela é parte da experiência humana — mas porque encontra outro destino. Vira pergunta, vira fala, vira eventualmente sentido.

O mesmo vale para compulsões. Quando o sujeito começa a entender o que sua compulsão tenta resolver, a compulsão começa a perder seu papel. Não porque a pessoa “decidiu” parar. Porque o sintoma deixou de ser necessário do mesmo modo.

Sobre o tempo desse trabalho

É um trabalho lento. Pode levar anos. Pode passar por fases de aparente piora antes de melhora. Pode mudar de sintoma várias vezes antes de se estabilizar.

Para quem está sofrendo agudamente com crises ou compulsões, esse tempo lento parece insuportável. E é por isso que, em muitos casos, faz sentido combinar análise com outros recursos: medicação para a fase aguda, suporte familiar, eventualmente grupos específicos para certas dependências.

A análise não é tratamento exclusivo. É um trabalho de fundo que se sustenta em paralelo a outros suportes, quando esses outros suportes são necessários.

Não é “querer parar”

Uma das coisas mais cruéis que se diz a quem sofre de compulsões é “se você quisesse mesmo, conseguiria parar”. Isso reforça a culpa sem tocar na causa. Aprofunda a vergonha sem oferecer caminho.

Quem sofre de compulsão quer parar. O problema não está na vontade. Está num registro que a vontade não alcança.

Reconhecer isso é o primeiro passo para começar a tratar de outro jeito. Não substituindo a vontade por outra vontade, mais forte. Mas dando lugar a uma escuta que possa começar a desfazer, lentamente, o nó que produz o sintoma.

Quando procurar análise

Se você convive com crises de pânico recorrentes, ou com uma compulsão que se repete apesar de tudo o que você já tentou, pode valer a pena considerar uma escuta analítica. Não como substituto de tratamento médico, quando ele for necessário. Mas como trabalho complementar que toca no que a medicação não toca.

A entrada não é por garantia de resultado. É por disposição de fazer um trabalho diferente: trabalho de fala continuada, sustentada num enquadre, sem promessa de eliminação rápida do sintoma.

Se isso ressoa, é possível solicitar uma entrevista preliminar. Vamos conversar sobre o que você está vivendo, sobre o que já tentou, sobre se faz sentido para você esse outro caminho. Sem pressa, sem urgência, sem garantia. Apenas a possibilidade de começar a fazer outras perguntas.

Referências

  • Freud, S. (1909). Notas sobre um caso de neurose obsessiva (Homem dos Ratos). Edição Standard Brasileira, vol. X.
  • Freud, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. Edição Standard Brasileira, vol. III.
  • Lacan, J. O Seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

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